Friday, May 11, 2007




Dia 14 de Abril



A partida atrasada para Réfane deveu-se a um choque traseiro na nossa camioneta, provavelmente resultado da condução “salve-se quem puder” tipicamente senegalesa. Partimos então. A estrada rudimentar que nos levava ao nosso destino entretinha-nos de mil maneiras – o trânsito empatava; abordavam-nos vendedores ambulantes de cajus, óculos de sol ditos “de marca” e cintos a imitar cabedal; pasmávamos com os autocarros em avançado estado de decomposição mas carregados de gente; e sorriamos com a publicidade ingénua do comércio local. Antes de chegar a Réfane visitámos o maior mercado do Senegal, Touba Toul, local onde talvez tenhamos sentido, pela primeira vez, o prazer da novidade: o que se vende, como se negocia e quem o faz. As bancas toscas feitas de paus e zinco acolhem os comerciantes, ora tímidos, ora curiosos da nossa presença. Vendem alimentos frescos e secos, panelas e caldeirões de ferro, tecidos tradicionais, cabaças, drogarias fora de prazo, sapatos em segunda mão, especiarias coloridas, cabras, bodes e burros … Chegámos a Réfane, aldeia situada na região de Thiés, a duas horas de Dakar. Ficaríamos aqui durante seis dias para ajudarmos na limpeza e pintura do Centro de Promoção da Mulher Rural Luísa Nemésio. As boas vindas foram desde logo dadas com um almoço senegalês cozinhado pela Dior, a nossa chef! Esta risonha mulher ofereceu-nos Yassa, prato feito de galinha ou peixe, com estufado de cebola e acompanhado de arroz, originário da Casamança, outra região do Senegal. Fomos cumprimentar a população que nos saudou com danças. A música e dança estão sempre presentes e fazem parte da vida quotidiana do Senegal. Têm sobretudo um carácter sagrado e podem celebrar um nascimento, um casamento, a morte ou as colheitas. As mulheres sucediam-se numa dança frenética e ritmada ao som de instrumentos de percussão. Entravam primeiro as mais velhas e só depois as mais novas. A beleza dos fatos das mulheres que dançavam, feitos de tecidos Wax (indústria têxtil senegalesa), distraíam os nossos olhos com tanta cor. Não havia um tecido repetido. Enquanto espantávamos com a dança, mil olhos brilhantes observavam-nos com curiosidade. Não é todos os dias que Réfane recebe visitas. O chefe da aldeia, a representante das mulheres do Centro de Promoção da Mulher Rural (CPMR) e o representante dos jovens multiplicaram-se em palavras generosas de boas-vindas ao grupo e à AMI. Fomos visitar o Centro e ver que trabalhos nos esperavam nos próximos dias. Ainda antes do jantar fizemos o reconhecimento de parte da aldeia. Nesta terra é impossível sentirmo-nos sozinhos. Há sempre gente na próxima esquina que nos saúda ou crianças que brincam em grupo pelas ruas. Regressámos já de noite ao nosso “hotel de mil estrelas”, expressão utilizada pelo Fernando Nobre aquando das suas estadias ao relento durante as missões. Não há céu mais estrelado do que o de África…



Nit Nit Ay Garaban - O homem é o remédio do homem.



Dia 13 de Abril

Já no aeroporto de Lisboa reparámos na animação das cores senegalesas – desfilavam já alguns bousbous (trajes tradicionais) ao lado de vestes europeias.
Entrámos no avião com alguns sorrisos curiosos causados pela bagagem de mão de alguns passageiros senegaleses: rádios, sacos de mercadorias, malas Louis Vuitton de contrafacção que atolavam as cabines e invadiam o lugar do vizinho do lado...
Aterrámos em Dakar onde dormimos a primeira noite.

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